Estava até um pouco difícil dirigir aquela noite, tal a irritação que saia por todos os poros. O trânsito geralmente transforma-se num lugar para soltar demônios e o trajeto Humaitá – Tijuca, foi o palco de alguns dissabores propiciados peça enxurrada de hormônios de uma TPM incontrolável.
Podia ter sido mais um inconveniente sinal vermelho, mas foi o fim. Não, nenhum acidente de trânsito. Mas naquele sinal eu vi um menino de rua. Alguma novidade? A princípio nenhuma. Mas naquela noite eu vi o menino. Vi, no pleno sentido da palavra. Vi, não só enxerguei. Vi, e o que as minhas retinas viram foi totalmente processado pelo cérebro, totalmente absorvido pelo coração. Com todos os cenários, causas, conseqüências e toda loucura daquela cena.
Cena a qual “aprendemos” a ignorar, resmungar, desviar os olhos, enfim qualquer coisa que nos ajude a congelar toda reação que nossa natureza humana possa provocar. Nas grandes cidades, esse é o cenário diário, que já não choca.
Mas naquele dia, eu vi. Vi como ele era magro, como tinha vergonha da situação, como estava ainda mais cansado do que eu após meu longo dia de trabalho. Vi os olhos brancos, e sem o brilho da esperança, só o opaco da espera por alguma ajuda, por sair dali.
Diferente de muitos, ele não pedia. Ficava ali parado, observando. E esperando. Como se houvesse começado ontem no ofício, ainda sem saber o modus operandi. Foram alguns segundos desse encontro. Talvez três segundos desse encontro, nunca saberei.
Porque ali parece que os relógios pararam. As lágrimas, presas até então, brotaram com força de corredeiras. As mãos tremeram. Braços congelados. Sem reação a não ser os soluços. O sinal, que normalmente enlouquece até o motorista mais paciente, de tão demorado, nesse dia ironicamente abriu nesses poucos segundos. Um piscar de farol do carro de trás, me fez recomeçar os mecânicos movimentos, mas o choro continuava.
No quarteirão escuro fui refletindo, novamente questionando minha firme opinião de não dar dinheiro em sinais de trânsito, em especial para crianças. Senti-me mal, uma avarenta. Mas essa decisão nunca foi pelo dinheiro, mas pelo mérito.
Dessa vez, me culpei por não ter dado o dinheiro, me culpei por não parar o carro, descer e levá-lo a um lugar onde pudesse comer um bom prato de comida. Culpei-me por não levá-lo pra casa e dar um banho, roupas, um lar. Até por não cuidar da sua educação e nem dar o carinho que uma criança merece. Culpei-me pelos políticos que eu elegi, pela sociedade em que vivo, pelas injustiças do mundo.
E nessa torrente de derivadas, eu vi, para o pânico total de minha mente atormentada, que ainda que eu tivesse adotado aquele menino eu não resolveria o problema pelo qual estava chorando, ele era muito maior que eu e minhas possibilidades de ação.
E nessa hora veio o vazio, geralmente carona do sentimento de impotência. Consegui chegar, estacionar, o carro ir até o apartamento do meu namorado e abraçá-lo pra terminar o saco de lágrimas que ainda tinha, e ver no semblante dele um grande ponto de interrogação. Acalmei-me, e superei mais uma TPM da minha vida.
Dias – ou foram meses? – após o episódio, no mesmo sinal. Lá estava o menino novamente. Dessa vez o sinal ficou fechado por minutos, e me deu o tempo de reconhecer o menino, sentir um calafrio de lembrança daquela noite, rapidamente colocar minha “opinião formada sobre dar dinheiro no sinal” no lixo da consciência, pegar cinco reais e chamar o menino.
Ele me olhou, pôs a mão no peito perguntando se era com ele, e eu o chamei novamente. Entreguei o dinheiro e ele me deu um sorriso, que está na lista dos mais emocionantes da minha vida, agradeceu se afastando devagar.
O sinal abriu, e os pensamentos voltaram com a velha e amarga dúvida sobre dar ou não dar algo no sinal, especialmente para crianças. Ás vezes me pergunto, parece coisa de doido, se o menino existe, ou se é como aqueles personagens de filme clichê que aparecem para ver sua reação às coisas do mundo. Será um anjo ou coisa parecida?
Mas o que tem voltado à mente é um trecho dessa crônica, que já não sei mais se é verdadeira “E nessa torrente de derivadas, eu vi, para o pânico total de minha mente atormentada, que ainda que eu tivesse adotado aquele menino eu não resolveria o problema pelo qual estava chorando, ele era muito maior que eu e minhas possibilidades de ação.” Será?
Quais são as nossas possibilidades? Como não deixar-se parar de se indignar com tudo isso? O que é certo ou errado aqui? Ficar imóvel, alegando posições fixas e sem ajudar com o pouquinho você pode? Ou dar o pouquinho que você pode e depois se sentir bobo por ter tido a ilusão de que isso resolve alguma coisa?
3 Faíscas:
Que bom que voltou a escrever!
Também passo por esses questionamentos muitas e muitas vezes e sempre "saio" deles me sentindo uma pessoa ruim, egoísta... Acho que a gente faz pouco ou nada por medo de se ferir ao se envolver na causa.
Texto incrivelmente emocionante.
Uma triste realidade, mas também uma reflexão deveríamos ter todos os dias, a cada sinal fechado e a cada menino que depois desaparece com a nossa esperança de melhor alguma coisa no mundo.
Bom, se foi erdadeira, foi bonita a sua ação.
Beijos,
Bruna S. Oliveira
é, minha amiga... a tua TPM serviu para alguma coisa! ;-)
e essa tal de 'opinião formada e fixa sobre as coisas' deve ter as suas exceções, ham? melhor assim...
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